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Cultura de paz, sustentabilidade e o cérebro ético


10/01/2011

Cultura de Paz, Sustentabilidade e o Cérebro Ético

Regina Migliori

 

Paz é um valor humano, e como tal é um princípio direcionador das nossas ações. Um ponto de partida para as inteligências humanas, fundamentado no respeito pelos diferentes. Não corresponde ao estado de inexistência de conflitos, e sim à capacidade de administrá-los.

 

A paz também não pode ser compreendida de forma fragmentada, somente como um estado de espírito individual. Ou como um sistema autoritário de relações homogêneas, embasado na possibilidade de que todas as pessoas pudessem vir a sentir, pensar e agir da mesma forma, onde qualquer manifestação de diversidade, ou seja, qualquer conflito, é percebido como ameaça.

 

Tampouco pode ser compreendida somente como antídoto à violência, pois seria reduzir uma postura criativa e transformadora a uma mera correção de rumos. Além disso, é um equívoco compreender a não-violência como uma perspectiva passiva, de omissão ou não-ação. Ao contrário, para atingirmos um patamar não-violento, temos que exigir de nós mesmos um altíssimo grau de exercício inteligente, criativo, competente e amoroso a fim de encontrarmos soluções não-violentas para os desafios que a vida nos apresenta. As respostas reativas ou de proteção, embasadas numa postura de ataque e defesa, são muito simples, primárias, correspondem a um patamar primitivo do comportamento humano, cuja tendência é ser superado pelas próprias exigências da nossa evolução. Como expressão inteligente de vida, seres humanos já sabem realizar algo mais do que somente reagir violentamente a uma ameaça.

 

Estamos vivendo um momento em que percebemos movimentos simultâneos de globalização, e de busca das nossas raízes particulares. Sabemos que nossa identidade se constrói na relação com o outro, mas talvez nunca tenhamos nos relacionado com tantos "outros", tão diferentes de nós. Ressurge a ênfase sobre a necessidade de construir parâmetros éticos como uma contribuição efetiva, não só para maximizar resultados sustentáveis, mas também para construir uma cultura de paz que garanta nossa sobrevivência como espécie.

 

A ciência está integrando diferentes saberes em torno da noção de ser humano, compreendido como uma estrutura de vida inteligente, complexa e dinâmica. Este ponto de vista nos impulsiona para uma ampliação do entendimento sobre a evolução humana.

 

Aprendemos que sobrevive o mais apto, o mais adaptado, e aquele que sobrevive é o mais evoluído.  Essa postura prevê o domínio sobre o ambiente percebido: um mundo concreto sobre o qual pretendemos estabelecer uma relação de domínio. Este é um poder exterior, que pode ser obtido de fora para dentro, testado, conquistado, negociado, enfim, compreendido em uma posição externa a nós mesmos. Estabelecido este espaço externo de poder, a tendência é protegê-lo, e atacar quem o ameaça - está assim instaurada a raiz da violência, sob os auspícios da mais acirrada noção de competitividade, onde vale tudo para ser "evoluído".Será que temos ensinado isso nas nossas escolas?

 

Esta é a abordagem que a nossa sociedade tem priorizado Porém, um modelo de evolução centrado no exercício do poder externo é um modelo falho para se aplicar à existência humana. Não somos somente um corpo em busca de sobrevivência, tentando dominar seu meio. Somos seres inteligentes, sensíveis e criativos. Nossos anseios não se restringem às questões de sobrevivência biológica. Existimos também em outras dimensões, que precisam de espaço no mundo para se expressar. Não só nossos corpos evoluem. Nossas mentes também estão em evolução. Acrescentar a consciência à idéia de evolução, significa admitir que não buscamos exclusivamente respostas aos anseios de sobrevivência. Eles coexistem e se integram aos anseios de transcendência.

 

A evolução da consciência não conduz ao desejo de dominação, e sim aos anseios de  compreensão e cooperação. Para atendê-los é preciso ampliar nossas capacidades de percepção e de processamento mental, expandidos para além de um universo concreto e mensurável, sobre o qual podemos exercer algum domínio. A dimensão da consciência humana inclui um universo intangível, invisível. O poder que se passa a exercer não é de caráter externo.

 

Pode-se obrigar alguém a fazer alguma coisa, mas ninguém controla o que uma pessoa sente ou pensa. Reconhece-se aqui uma fonte de poder intangível, uma autonomia interior, algo que não se conquista de fora para dentro, não se usurpa, não se domina no outro, simplesmente porque é natural, inerente a todos os seres humanos. Descobre-se aqui a fonte da liberdade, da responsabilidade, e a raiz da ação ética, que depende da capacidade de dialogar com a própria consciência.

 

Impedir este competente exercício da consciência humana é sentenciar as pessoas a uma profunda crise de identidade, impossível de ser curada somente com mais dinheiro, benefícios, ou tempo livre. Sufocar a evolução da consciência é determinar a extinção da humanidade. Os desafios atuais da educação passam pela busca de atendimento sinérgico dos anseios humanos de sobrevivência e transcendência.

 

Thomas Kuhn nos coloca que "o caminho que leva do estímulo à sensação é parcialmente determinado pela educação. Indivíduos criados em sociedades diferentes comportam-se em algumas ocasiões como se vissem coisas diferentes”. Trata-se da hipótese de que, aquilo que nos parece óbvio e lógico, pode ser apenas o resultado de um condicionamento longamente instituído e profundamente sedimentado.

 

Na trilha dessa afirmação, as neurociências mostram pistas sobre a forma como estes condicionamentos operam em nós. Aprendizagem e memória podem contribuir para um avanço da humanidade em termos de um futuro sustentável, ou podem fortalecer o aprisionamento a um modelo de vida que compromete a nossa própria sobrevivência. Mas como decidimos? Até que ponto nossas decisões expressam uma pseudo liberdade, aprisionada a condicionamentos que direcionam nosso comportamento?

 

Neurocientistas vêm identificando no cérebro humano, uma região destinada ao processamento de valores. Esta notícia revoluciona o entendimento sobre ética e moralidade. Esta pauta deixa de ser exclusivamente filosófica, política, pedagógica ou comportamental, e se amplia para incluir a dinâmica neurofisiológica.

 

Estamos longe de solucionar os mistérios da relação cérebro/mente/consciência, mas saber um pouco mais pode auxiliar nos desafios da educação, da cultura de paz e da sustentabilidade. É uma revolução se iniciando.

 

Na parte frontal do cérebro, dispomos de neurônios dedicados a realizar sinapses com foco em aspectos éticos e morais - estas sinapses compõem redes neurais, uma espécie de “avenidas” por onde transitam nossos pensamentos: o “cérebro ético”. Demonstrações por neuroimagem têm fornecido evidências sobre a dinâmica destas redes. Estas evidências reabrem o debate sobre a natureza humana: ficou difícil sustentar a afirmação de que não há um potencial ético natural. Passa-se a considerar a hipótese de uma inteligência ética, que reconhecida como potencial humano, pode e deve ser desenvolvida, tal qual outras inteligências. Com isso, amplia-se a responsabilidade das pessoas que se dedicam profissionalmente a educar: uma responsabilidade neurofisiológica sobre o desenvolvimento dos cérebros das crianças e jovens com quem se relacionam.

 

Novas questões passam a exigir reflexão: que tipo de redes neurais têm sido fortalecidas na dinâmica cerebral das novas gerações? Estimulamos redes neurais harmônicas, equilibradas, altruístas, ou temos semeado a desesperança, a competição desenfreada, fortalecendo os condicionamentos da recompensa imediata e da ética do interesse próprio? Novos parâmetros educativos podem ser criados e exercitados. Porém, para que um novo cenário se concretize, é preciso compreender que não há paz sem inteligência, sem criatividade, sem competência e principalmente, sem uma atitude ética na vida. Esta postura demanda novas formas de pensar e agir, que determinarão as condições de sobrevivência da humanidade.

janeiro/2011

artigo do livro "Cuidados com a vida" publicado pelo Instituto Ecofuturo www.ecofuturo.com.br

 



 



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