nav

ARTIGOS





ARTIGOS

Cérebro ético, ação humana e sustentabilidade


10/12/2010

Cérebro ético, ação humana e sustentabilidade

Regina Migliori

 

A transformação dos impactos produzidos pelo ser humano no mundo, está vinculada a profundas alterações no entendimento do processo que produz a ação humana. Desde a ampliação da percepção e do processamento mental, passando pela reestruturação de modelos e valores, até uma atuação conscientemente co-criadora da realidade, em níveis de responsabilidade que atendam às demandas do cenário atual.

 

Ou seja, não haverá um "fazer" diferente, enquanto não se transformar também o "sentir" e o "pensar", enquanto não se ampliar o poder de percepção e processamento mental, funções cognitivas e processos decisórios mais abrangentes e sistêmicos.

 

Esta visão corresponde à ampliação da nossa consciência, a partir de um modelo que integre a compreensão das características naturais, dos potenciais acionados, e da própria atuação. Um encontro entre o mundo interno e a realidade exterior.

 

A ação humana se apresenta em três níveis de conexão sistêmica: indivíduo consigo mesmo; decisão sobre seu universo de ação; responsabilidade sobre impactos provocados

 

O primeiro destes níveis corresponde à identificação das próprias potencialidades, motivações, memórias, conhecimentos, e tudo o que estiver direcionando sua atuação.

 

As pessoas se habituaram a colocar toda a atenção sobre o produto final da ação, como se fosse algo desligado de si mesmo.  É recomendável adquirir o saudável hábito de identificar dentro de si, as origens do que se pretende colocar em ação. Ter clareza sobre o que se oferece ao mundo. Esta é uma busca interior. Uma fase fundamental para vincular a ação ao universo da consciência, e deixar de atuar no mundo de forma automática, orientado por metas e expectativas de resultados produzidos totalmente fora de si mesmo.

 

Cada ser humano atua em inúmeros ambientes, munido de seus potenciais, características e comportamentos. Trata-se do segundo nível da estrutura de conexões: as realizações em um determinado universo de atuação. Consciente ou inconscientemente, as pessoas estão permanentemente em ação. Discutir a qualidade desta ação, é também discutir o nível de consciência e responsabilidade que temos sobre ela.

 

Infelizmente, o nível de consciência das ações não altera o grau de interferência dos resultados da atuação no mundo. Querendo ou não, os atos de um ser humano impactam sobre ele mesmo e sobre a realidade externa. O fato de não ter consciência das ações, não significa que elas deixarão de determinar inúmeras conseqüências.

 

Temos encarado a ação como um ato de produção e não de transformação. Esta falta de consciência sobre a real importância de nossos atos, faz com que a ação seja irresponsável, quando não catastrófica. É esta tomada de consciência que identifica uma rede de relações interdependentes, estabelecida em nosso universo de ação. Isso corresponde à capacidade de pensar, agir e ser responsável de forma sistêmica.

 

A ação não é linear. O que se faz está conectado sistemicamente a tudo o que já se viveu anteriormente, ao que se está vivendo, e a tudo o que virá no futuro. Uma grande teia da vida onde tudo se conecta. Vida é o exercício do nosso ser. Quanto mais estivermos em contato com o que somos, mais rico será o nosso exercício, e mais plenamente estaremos vivendo.

 

Nossa ação no mundo não se inicia com o que efetivamente fazemos. Ela é gerada dentro de nós, e produz impactos no mundo interno e na realidade exterior.

 

Esta coerência interna é pacificadora, transmite segurança e auxilia na percepção da nossa evolução.  Além disso, este é o eixo que pode proporcionar a velocidade exigida pelo atual contexto de realidade, onde nada é completamente controlado e previsto, com muitas variáveis, e altos níveis de complexidade em todas as situações.

 

O potencial é individual, a ação é local e a repercussão é planetária. Esses 3 níveis estão constantemente integrados. Não há como separá-los. Um ponto de vista integrador aplicado à nossa atuação, nos permite compreende-la simultaneamente como criação, ação e repercussão. Estamos sendo forçados a compreender que não há ações isoladas e estáticas, e a estabelecer um novo modo de ser e agir mais sustentáveis. Não há como ignorar o vínculo entre sustentabilidade e valores.

 

Neurocientistas vêm identificando no cérebro humano, uma região destinada ao processamento de valores, que vem sendo chamado de “cérebro ético”. Esta notícia revoluciona o entendimento sobre ética e moralidade. Esta pauta deixa de ser exclusivamente filosófica, política, pedagógica ou comportamental, e se amplia para incluir a dinâmica neurofisiológica.

 

Estamos longe de solucionar os mistérios da relação cérebro/mente/consciência, mas saber um pouco mais pode auxiliar nos desafios da educação, da cultura de paz e da sustentabilidade. É uma revolução se iniciando.

 

Na parte frontal do cérebro, dispomos de neurônios dedicados a realizar sinapses com foco em aspectos éticos e morais. Estas sinapses compõem redes neurais, uma espécie de “avenidas” por onde transitam nossos pensamentos: Demonstrações por neuroimagem têm fornecido evidências sobre a dinâmica destas redes.

 

Estas evidências reabrem o debate sobre a natureza humana: ficou difícil sustentar a afirmação de que não há um potencial ético natural. Passa-se a considerar a hipótese de uma inteligência ética, que reconhecida como potencial humano, pode e deve ser desenvolvida.

 

Esta região frontal do neo-córtex é também responsável pelas formas mais elaboradas de comportamento, resultantes de metas impostas pelo próprio indivíduo, que dependem de planos e estratégias, regulando idéias e ações por meio do diálogo interior. Mas é preciso saber realizar este diálogo interno e conectá-lo à ação no mundo. O potencial está aí, mas precisa ser desenvolvido.

 

Descobriu-se que solicitações verbais externas são eficazes para dar início a alguns comportamentos, mas não têm a mesma eficácia para interrompê-los ou redirecioná-los. Neste processo decisório, o diálogo interior é mais relevante do que a recomendação externa.

 

Isso nos obriga a reavaliar nossos discursos e práticas. Sabemos que a mídia, as empresas, escolas, e todas as demais instituições influenciam as pessoas. Mas até que ponto têm conseguido de fato provocar o que elas têm de melhor?  Têm contribuído para um avanço da humanidade em termos de um futuro sustentável, ou fortalecem o aprisionamento a um modelo de vida que compromete a nossa própria sobrevivência?

 

Trocando em miúdos, está na hora de avaliar com lucidez e honestidade, o quanto temos sido competentes em praticar nossas boas intenções expressadas em missões, visões, valores, crenças, essências de marca, etc.

 

Estamos vivendo um momento de movimentos simultâneos e conflitantes: de globalização e de busca das nossas raízes particulares. Sabemos que nossa identidade se constrói na relação com o outro, mas talvez nunca tenhamos nos relacionado com tantos "outros", tão diferentes de nós. Ressurge a ênfase sobre a necessidade de construir parâmetros éticos como uma contribuição efetiva, não só para maximizar resultados sustentáveis, mas também para construir uma cultura de paz, que garanta nossa sobrevivência como espécie.

 

É bom se lembrar disso ao educar os filhos, avaliar equipes, adotar tecnologias, fortalecer negócios, ofertar e consumir produtos e serviços, interagir na teia de relacionamentos, entre tantos outros aspectos do cotidiano nosso de cada dia nas organizações. Mais do que tudo é preciso urgentemente resgatar a natureza benéfica das empresas e de seus negócios, alterar a rota das culturas organizacionais e das estratégias de desenvolvimento humano, ampliar as formas de gestão do compromisso e da qualidade das relações com stakeholders, transformar a ética do interesse próprio em foco no bem comum. Ninguém vai bem em um mundo que vai mal – todo mundo repete isso no cenário empresarial, mas talvez aquela parte do cérebro à qual nos referimos ainda não esteja sendo bem acionada – pios o nível de coerência ainda é baixo.

 

Pequenas mudanças não surtirão efeito. A dimensão da transformação demandada já é conhecida. Mas ainda não sabemos o que fazer. Todavia, precisamos decidir.  Talvez ainda estejamos aprisionadas aos condicionamentos que têm direcionado nosso comportamento em torno dos mesmos equívocos. A demanda é por novas formas de pensar e agir, que determinarão as condições de sobrevivência da humanidade. Este é o tamanho da nossa responsabilidade atual. Nessa hora, é bom saber que dispomos de uma inteligência ética, disponível para ser exercitada. A possibilidade existe, e a esperança se renova.

Artigo publicado na Edição 20 da revista Plurale.

dezembro/2010

 




EDUCAÇÃO COMUNICAÇÃO MEDITAÇÃO MINDFULNESS CULTURA DE PAZ CÉREBRO EDUCAÇÃO EM VALORES


Dúvidas? Estamos ansiosos para ouvir você.

Gostaria de levar o MindEduca para sua instituição?
SAIBA MAIS
Quer realizar um
evento na sua cidade?
ENTRE EM CONTATO
Quer se tornar
um instrutor?
SAIBA MAIS
Quer saber mais ou
falar com a gente?
ENTRE EM CONTATO

ANTES DE IR EMBORA

Baixe nosso programa