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Além dos Conteúdos


14/03/2009

Educadores do Ceará desenvolveram programa de Educação em valores humanos tentando minimizar a distância entre o conhecimento e esses valores na prática do ensino. A busca por mudanças ganhou o Brasil até chegar ao sul, mas há unanimidade quanto ao longo caminho que ainda deve ser percorrido
 
Quando o assunto é Educação muito se fala em formação e conhecimento, mas pouco se fala em Educação integradora ou em valores humanos. Segundo a educadora e consultora de Cultura de Paz da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), Regina Migliori, o ser humano se compõe de múltiplas dimensões (biológica, intelectual, cósmica, planetária, entre outras), entretanto a Educação trabalha somente a dimensão intelectual. "Todas as dimensões devem ser desenvolvidas em uma Educação integradora, que consegue desenvolvê-las de forma integrada e harmônica", explica.
 
Para a diretora do Instituto Migliori, o grande desafio da Educação é desenvolver as inteligências e competências subordinadas a uma esfera de valores humanos universais. "Não basta ser competente ou inteligente se isso é usado a serviço da destruição, da violência", afirma Regina. Ela acredita que o ideal é que o processo educativo trabalhe as dimensões de competência e de responsabilidade do ser humano. "É preciso ensinar a ser competente do ponto de vista ético", acrescenta. A educadora idealiza uma Educação que subordine o conhecimento aos valores humanos.
 
Cinco minutos
Valores que são a aposta de educadores e pesquisadores do Ceará que desenvolveram o programa "Cinco Minutos de Valores Humanos" e o disponibilizam gratuitamente pelo site www.cincominutos.org.
 
O programa é constituído por aulas de cinco minutos sobre questões relacionadas aos valores humanos, direcionadas a alunos do Ensino Fundamental. Doutora em Educação pela Universidade Federal do Ceará e integrante da equipe do projeto, Maria do Socorro Souza explica que a ideia surgiu da necessidade de promover uma interlocução entre professores e alunos acerca do tema. De acordo com a coordenadora do programa, a escritora Saara Nousiainen, a iniciativa surgiu com a possibilidade de solucionar as principais dificuldades que surgiriam ao se tentar inserir Educação para valores humanos nos conteúdos ensinados em sala de aula. "A proposta é de aulas diárias de apenas cinco minutos para que não se tornem cansativas para as crianças e para que possa ser facilmente implantada pela escola por não interferir na programação curricular", explica Saara.
 
 
Mundo mais justo
Saara Nousiainen garante que os conteúdos ministrados tem vinculação com nenhuma religião específica, mas abordam, eventualmente, a religiosidade e o amor em sua forma universal. Segundo a coordenadora, é na fase infantil que esses valores encontram maior ressonância e por isso o programa foi iniciado nessa fase. "Não houve tempo hábil para alguma escola implementar o programa, mas a receptividade tem superado as nossas expectativas".
 
Saara ainda dá ênfase à abordagem das duas vertentes em que a humanidade evolui. "Numa delas está o conhecimento. Na outra, temos o desenvolvimento da pessoa enquanto ser humano. Ocorre que há uma imensa defasagem entre elas".
 
Para ela, trabalhar valores humanos representa o fortalecimento dessa segunda vertente, o que geraria uma humanidade mais justa e igualitária e com mais possibilidades de felicidade real.
 
Conteúdo e formação
Regina Migliori também ressalta a importância de tirar o foco dos conteúdos e dar mais ênfase à formação do ser humano. "É preciso dialogar com os alunos como seres humanos e apresentar não o ser humano da competência instrumental como vemos hoje e sim, o ser humano competente e benéfico, ético", explica a educadora.
 
Ela acredita que é preciso recuperar a capacidade de formação e de transformação da Educação. Modificação que deve ser iniciada nos professores e profissionais das escolas. Segundo Maria do Socorro Souza, grande parte dos educadores, mesmo possuindo instrução e a informação acerca de alguns valores, os possuem apenas no nível intelectivo, mas ainda não os internalizaram. "Muitos não possuem autoridade ético-moral para tanto, assim não têm energia para bem  influenciar, não passam "uma verdade" nas aulas que ministram sobre o assunto", complementa.
 
O exemplo de casa
Mesmo os pais têm necessidade de transformação para promover o aprendizado dos filhos nas questões de valores humanos. "A grande maioria dá péssimos exemplos aos filhos: mentem ao telefone, são desonestos com pequenas coisas, egoístas no trabalho e no lar, no trânsito", afirma Maria do Socorro. A doutora explica que, para que exista a formação integradora do ser, de forma que os alunos internalizem essa questão, é necessário que pais e educadores vivenciem de verdade tais valores.
 
Ainda nesse sentido, Migliori sugere uma transformação também em muitos dos acadêmicos e pesquisadores da Educação. Ela enfatiza que é preciso parar de discutir o assunto e começar a praticá-lo, moldando a Educação em valores humanos em um processo de construção conjunta. "Hoje, tem muita gente estudando esse assunto, mas poucos estão colocando-o em prática. Quando falamos de valores humanos universais falamos de algo que, de fato, é universal e não está vinculado a um autor ou a uma filosofia".
 
Regina ainda afirma que os valores humanos estão na essência do ser humano, além das bibliografias. "É simples, como o amor é simples, como a paz também é. Essa simplicidade deve ser resgatada pela Educação. Visões sectárias só vão nos atrapalhar".
 
Em prática
Por e-mail, Saara apresentou o programa "Cinco Minutos de Valores Humanos" à Secretaria de Estado da Educação de Santa Catarina. Em resposta, integrantes da secretaria pediram dois exemplares dos livros do projeto, um para a biblioteca central e outro para análise da equipe responsável, é o que conta a coordenadora de projetos e ações multidisciplinares do órgão, Maria Benedita da Silva Prim. "Nós gostamos muito, porque os temas e sugestões de aplicabilidade nas aulas estão de acordo com a nossa proposta de trabalho nas escolas".
 
Maria Benedita explica que os temas foram incluídos no currículo de toda a Educação Básica e também na de jovens e adultos (EJA). Eles foram divididos em oito temáticas que serão trabalhadas nas escolas o tempo todo, em todas as 1323 escolas da rede estadual de Santa Catarina. Segundo a coordenadora, o conteúdo do livro "Cinco Minutos de Valores Humanos" será útil em todas as temáticas. "O que o professor pode fazer é adequar os questionamento de acordo com a idade/série e disciplina", incentiva. O início das atividades contou com sugestões de aula para professores e gestores em reuniões e palestras. "O resultado foi imediato, gerando bastante reflexão e até mudança de atitudes", conta Maria Benedita.
 
Segundo ela, os professores esperam que, com a inclusão dos "valores" no cotidiano escolar, as relações interpessoais melhorem. "Ainda é cedo para uma resposta mais certeira, mas esperamos a minimização do racismo, preconceito, discriminação e violência (bullying) nas escolas", complementa.
 
A contribuição de Pestalozzi
As bases para o trabalho pedagógico "Cinco Minutos de Valores Humanos para a Escola" estão na contribuição teórico-pedagógica do educador suíço Johann Heinrich Pestalozzi. Nascido em Zurique, em 1746, o órfão de pai encontrou nas dificuldades a consolidação de sua personalidade predominantemente humanista. Em 1798, durante a invasão francesa, o educador reuniu crianças desamparadas e passou a cuidar delas, colocando em prática a Educação como um desenvolvimento total do indivíduo, influenciado pelas ideias de Jean Jacques-Rousseau. Pestalozzi é considerado hoje um dos pais da Educação autônoma, com ênfase na formação do homem ético, sem desprezo pelo desenvolvimento cognitivo. Para ele, o conhecimento não era propriamente adquirido, mas sim desenvolvido, o aluno precisaria, então, somente do estímulo do educador para a Educação moral e espiritual, ou seja, integral. A Educação para Pestalozzi tinha como finalidade própria a humanização do homem.
 



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